sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Cuide-se bem!
[Guilherme Arantes]
Perigos há por toda a parte
E é bem delicado viver
De uma forma ou de outra
É uma arte, como tudo...
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR
A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR
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Uma pergunta que não quer, e que não deve, calar
Acabo de receber um livro que se constitui numa leitura muito adequada para este 18 de outubro, Dia do Médico. Foi organizado pelos doutores Álvaro Jorge Madeiro Leite, professor adjunto de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade do Ceará, e pelo médico geriatra João Macedo Coelho Filho, da mesma universidade.
Publicada pela Editora Saberes, de Campinas (SP) e prefaciada por Adib Jatene, grande cirurgião cardiovascular e ex-ministro da Saúde, a obra reúne ensaios de médicos, educadores, intelectuais, jornalistas, redigidos sob a forma de cartas para um jovem médico.
O título é mais que sugestivo: “Você Pode me Ouvir, Doutor?”. Fica claro que esta pergunta, que sugere incerteza, ansiedade, resulta também de uma certa frustração. E é uma questão crucial na prática da medicina em nossos dias e em nosso País. Uma prática que, em primeiríssimo lugar, chegou a um nível de excelência nunca sonhado na história da humanidade. Nunca a medicina curou tantos doentes, nunca salvou tantas vidas, nunca foi tão eficaz na prevenção. No entanto, não são poucas as queixas em relação ao atendimento médico: basta ler jornais, basta escutar rádio ou assistir à TV para constatá-lo.* * *
Grande parte destas queixas resulta do alto custo dos cuidados médicos, nos quais o componente tecnológico é agora componente fundamental. Uma outra e importante razão é a desorganização dos serviços, tanto os públicos quanto os privados. Mas temos também um fator relacionado ao nosso atual estilo de vida moderno e que é mencionado em vários dos ensaios do livro. Um fator que gira em torno do verbo “ouvir”.
Já repararam como ficou difícil ser ouvido? A gente liga para um serviço qualquer e recebe de volta uma mensagem gravada, que nos remete para tal ou qual número, um processo que pode levar muito tempo e no qual não conseguimos falar com nenhum ser humano.
A clássica explicação é a da falta de tempo, e isto atinge também a prática médica, com resultados negativos. Coisa paradoxal, porque todo estudante aprende, na faculdade, que o exame clínico começa por algo chamado anamnese, que é a narrativa, pelo paciente, do problema que o trouxe à consulta e de outros antecedentes que possam colaborar para o diagnóstico. Mais: a anamnese resulta num vínculo emocional que tem, por si só, valor terapêutico. Não são poucos os pacientes que afirmam se sentir melhor com a simples presença do médico.
Faz todo o sentido, portanto, a afirmação de Adib Jatene: “O médico não pode permitir que as máquinas o substituam. Não pode limitar o tempo da consulta, refugiar-se na solicitação de exames e encurtar a anamnese. Que a tecnologia não substitua o raciocínio clínico, que a eficiência não se contraponha ao afeto.” Palavras de um mestre, que os responsáveis por serviços médicos, públicos e privados deveriam considerar como diretriz básica; e, de outra parte, resposta mais do que adequada à pergunta que, na medicina, não quer calar, não deve calar: “Você pode me ouvir, doutor?”
domingo, 22 de agosto de 2010
do "O Livro das Ignorãças". Ed Record.
Manoel de Barros
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Grão De Amor
Grão De Amor
Carlinhos Brown / Marisa MonteMe deixe sim
Mas só se for
Pra ir ali
E pra voltar
Me deixe sim
Meu grão de amor
Mas nunca deixe
De me amar
Agora as noites são tão longas
No escuro eu penso em te encontrar
Me deixe só
Até a hora de voltar
Me esqueça sim
Pra não sofrer
Pra não chorar
Pra não sentir
Me esqueça sim
Que eu quero ver
Você tentar
Sem conseguir
A cama agora está tão fria
Ainda sinto seu calor
Me esqueça sim
Mas nunca esqueça o meu amor
É só você que vem
No meu cantar meu bem
É só pensar que vem
Lá ra ra rá
Me cobre mil telefonemas
Depois me cubra de paixão
Me pegue bem
Misture alma e coração
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Amando sobre os jornais. Chico Buarque/1979
Chico Buarque/1979
Amando noites afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias
Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos, mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes
Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nossos olhos vidrados
De mistério
Olhos nos olhos
| Olhos nos olhos Chico Buarque/1976 | |
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| Quando você me deixou, meu bem Me disse pra ser feliz e passar bem Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci Mas depois, como era de costume, obedeci Quando você me quiser rever Já vai me encontrar refeita, pode crer Olhos nos olhos, quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais E que venho até remoçando Me pego cantando Sem mais nem porquê E tantas águas rolaram Quantos homens me amaram Bem mais e melhor que você Quando talvez precisar de mim 'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim Olhos nos olhos, quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz |
Acalanto [Paulo Henriques Brito]
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Tinha vantagens não saber do inconsciente...
Adélia Prado
Quero minha mãe (Record)
Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, sensações, desejos. Contudo ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado.
